Por Fábio Marques

Foi na tarde de sábado ao escutar clássicos musicais dos anos 70, que um reprise acabou batendo na corrente cerebral de minhas memórias. Entre a lágrima e o sorriso, revivi momentos que retratam a época de uma Guajará-Mirim com mais glamour, elegância, romantismo e, sim, qualidade de vida, que gostaria de compartir com os amigos leitores.

Começo lembrando meus tempos de colégio primário. As matérias eram Linguagem, Matemática, Ciências e Estudos Sociais. Ao final de toda semana havia a sabatina na qual a professora passava de aluno para aluno as questões referentes à tabuada ou qualquer outra matéria. Para aqueles que passavam no teste, parabéns. Para aqueles com menos QI, restavam puxões de orelha, reguadas, palmatórias ou o castigo que consistia em o aluno ficar de joelhos de frente para a parede sobre um tapete feito com tampas de garrafas. E o pior é que os pais nem chegavam a questionar este método de ensino e haviam alguns que até incentivavam. Hoje caberia processo.
Guajará-Mirim tinha dois cinemas e em todas as férias por aqui aportava um circo gigante tais como o Lambari, o Royale, o Orama e o Norte-Africano que fincavam seus esteios nas cercanias do Clube dos Trabalhadores ou da Escola Capitão Godói. Éramos vidrados por futebol e fãs incondicionais da Revista Placar. Fazíamos fila na banca do Paquinha na espera que ele abrisse os malotes para nos vender a revista.
Nesta época o comércio abastecia com mercadorias toda a região do Beni na Bolívia e todos os seringais e regiões dos rios Mamoré e Guaporé, incluindo cidades como Forte Príncipe, Costa Marques, Pedras Negras e Vila Bela. A atividade industrial tinha na extração de castanha e borracha um enorme manancial que gerava renda e emprego para muita gente. Em proporções menores nosso comércio também se fazia representar pelo leiteiro que entregava o produto na porta de casa, havia o “bucheiro”, vendedor ambulante de miúdos de boi, o vendedor de tortilhas, de cocadas e de “quebra-queixo” que eram vendidos em tabuleiros levados na cabeça e armados na frente do freguês.
Também havia as serrarias, marcenarias, olarias, fábrica de picolés e também a “indústria” da higiene pessoal. Neste ramo, as pessoas ricas da cidade depositavam a confiança de entregar suas roupas de seda, tergal, linhos e casimiras para as lavadeiras que se juntavam nos igarapés dos bairros Triângulo e São José com suas bacias de alumínio, sabão e cassetete e passavam o dia a esfregar e cacetar as roupas, tarefa acompanhada de muitos fuxicos.
Tínhamos nossos problemas, é claro. Faltava gás, faltava energia e faltavam produtos essenciais na época do inverno. Isto fora a odisséia que era se deslocar até Porto Velho na velha estrada de piçarra, cujas viagens chegavam a demorar até 20 horas devido aos atoleiros e baldeações. Mas a confiança em dias melhores distorcia esta tortura para transformá-la em aventura.
Embora a título precário, esta é a Guajará-Mirim de minhas lembranças, cidade que aprendi a amar e sempre guardarei em meus “flashbacks”.
*O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Mamoré não tem responsabilidade legal pela "opinião", que é exclusiva do autor.

Polo Guajará-Mirim:

Avenida XV de Novembro, 1922 - Em frente ao Ginásio Afonso Rodrigues

(69) 3541-5375

(69) 99357-8293

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