27 de setembro de 2019

Apenas 4,5% da população de RO tem acesso à coleta de esgoto

Assim como Nova Mamoré, a cidade de Guajará-Mirim é um retrato, com contornos ainda mais intensos, do Estado de Rondônia no quesito saneamento básico.
Apenas 4,5% da população de RO tem acesso à coleta de esgoto

Quando alguém pergunta a um morador do interior de Rondônia sobre as condições de saneamento na sua cidade, pode se deparar com uma sensação de estranheza no ar.

Alguns moradores até desconfiam da pergunta, deixando transparecer que a indignação deu lugar a um certo conformismo imposto pela falta de políticas claras, que faz o Estado ter o pior saneamento, de um país já com grandes problemas no setor.

Em Rondônia, apenas 4,5% da população tem coleta de esgoto, segundo dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) de 2017. 
As enchentes ajudam na contaminação de águas
“Na verdade, não existe coleta aqui, nenhum tipo”, diz uma moradora de Nova Mamoré, que até prefere não ter seu nome divulgado.

Dizendo-se ocupada com seus afazeres, ela não resiste e arrisca dar outra descrição.

“O esgoto vai para as fossas em todas as casas, mas eu moro aqui há pouco tempo, não posso falar muito”, desconversa.

E de onde a senhora veio? O repórter insiste.

“De Guajará-Mirim, também em Rondônia.”

E lá, como era?

“Na verdade, a mesma coisa, também não tinha nada. Até é difícil água para beber, tem poço nas casas, mas é precário. Agora tenho que desligar, não tenho mais nada para dizer”, completa, como se ela não estivesse falando sobre um direito inerente a um cidadão. Como se ela fosse devedora de algo.

Assim como Nova Mamoré, a cidade de Guajará-Mirim é um retrato, com contornos ainda mais intensos, do Estado de Rondônia no quesito saneamento básico. Isso quem fala é um morador esclarecido da cidade, o franqueado de uma loja de colchões, Romeu Prado Afonso de Miranda, de 38 anos.

“Na nossa região o índice é ainda mais alarmante, não passa de 2%. Nossa população, em geral, nunca saiu da região. Quando muito vai para um sítio próximo ou para a cidade de Nova Mamoré, a 40 e poucos km. As pessoas têm muito potencial, mas não conhecem o que é qualidade de vida, se acostumaram com fossas, muito por falta de conhecimento. Reclamam mais quando acontece alguma calamidade, enchente, alagamento, mas nem sabem por que isso ocorreu. Na verdade, essas situações também têm a ver com falta de saneamento”, diz.

Pode-se dizer que Romeu é uma “pérola de conhecimento” em uma região com riquezas e história, mas ainda tão carente. Jovem, ousado, ele não esconde a paixão pela cidade em que nasceu.

E para onde, voluntariamente, retornou há 10 anos, após vivenciar seu país, tendo morado no Rio de Janeiro, Ceará (onde cursou Engenharia Civil, em Sobral), Amapá, Acre , só não conhecendo os três estados do Sul.

Ao se referir à falta de informações de muitos de seus conterrâneos, ele considera a sua população muito mais vítima do que responsável. A responsabilidade maior, segundo ele, é dos políticos e autoridades locais, que não demonstram interesse em modificar tal panorama.

“Há uma máfia muito grande aqui e praticamente em todo o Estado. Ela manipula o poder para manter tudo na mesma. Já vieram asiáticos interessados em investir aqui, mas saíram sem acreditar na viabilidade. Essas pessoas da máfia vivem do atraso, manipulam de tal forma que interessados em investimentos desistem. Eles temem perder espaço e dinheiro com as melhorias”, afirma.

Romeu fala, por outro lado, com orgulho das possibilidades de sua região. Tanto turísticas (a cidade abriga o museu relativo à Estrada de Ferro Madeira-Mamoré) quanto de investimentos no comércio.

O município, plano, é cercado de rios (o Mamoré e o Madeira) e matas, em meio a igarapés e serras. Inserido no Vale do Guaporé, pode ser um centro de ecoturismo e turismo cultural, com o privilégio de ter 93% de sua área com mata nativa.

E fica próximo da fronteira com a Bolívia o que, segundo Romeu, abre inúmeras possibilidades para o desenvolvimento do comércio.

“Na questão comercial, a cidade faz fronteira com Guayaramerin, na Bolívia, uma cidade-irmã. De um país que depende de nós para se abastecer com produtos. Há um comércio natural, muitas vezes informal, mas há toda uma discussão de como aprimorá-lo, o que ainda não ocorreu. O ideal é fazer os bolivianos virem até o Brasil para comprar e fazer o dinheiro circular. A região já é de livre-comércio e agora se tornou também área de free shop (lojas francas). É algo que precisa ser aprimorado, mas as autoridades estão realizando políticas em ritmo muito lento,” diz.

O belo Estado de Rondônia, importante para o País, inclusive em momentos como o Ciclo da Borracha (cujo auge ocorreu entre 1879 e 1912), trazendo transformações culturais e sociais, reflete no grau máximo o histórico de descaso das autoridades em relação ao saneamento básico.

Para tentar entender o que ocorre no Estado, o R7 enviou uma série de perguntas ao Caerd (Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia) e não obteve resposta.

Romeu, no entanto, dá algumas explicações para a situação precária em seu Estado. Em primeiro lugar, afirma que há ineficiência do Caerd e do governo de uma maneira geral.

“Nem o Caerd nem nenhuma instituição estadual têm trabalhado com competência. Ontem, para se ter uma ideia, a cidade ficou sem água, sem energia, sem internet. Voltou muito lentamente, de fase em fase”, conta.

Ele revela que, nas últimas eleições, se candidatou a vereador, mas não foi eleito. No seu discurso, nenhuma mágoa, apenas algumas constatações.

“O nível de informação das pessoas é muito baixo. Não digo a capacidade delas, isso não. Mas tinha como plataforma algumas propostas, simples, para melhorar. Eram básicas, mas as pessoas viam como de outro mundo. Queria dar um status real à função de vereador, que não é dono de nada. É um legislador e um fiscalizador. Essa falta de conhecimento é uma barreira e uma proteção contra qualquer mudança, mesmo que seja para melhor”, analisa.

As questões burocráticas, enraizadas há anos na estrutura política não só do Estado como do País, também dificultam qualquer melhoria, segundo ele. Somadas às dívidas dos municípios da região.

“Aqui em Guajará-Mirim não existe Plano Diretor. Não dá para imaginar uma coisa dessas! Mas é real. Como melhorar o saneamento desta maneira? Isso ocorre com muitas, muitas mesmo, cidades do Estado. Além disso a maioria está inadimplente, sem recursos, e com isso as cidades ficam impedidas de receber determinadas verbas”, lembra.

As consequências factuais dessa crise permanente têm causado enormes transtornos à população.

Segundo estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), publicado em 2018 1.933 municípios (34,7% do total) do País registraram epidemias ou endemias resultantes da falta de saneamento básico em 2017.

Dengue (26,9% do total), diarreia (23,1%) e verminoses (17,2%) lideraram a lista, que tinha ainda doenças como zika e chikungunya.

Esta situação está muito presente em Rondônia, segundo estudo do Instituto Trata Brasil. Dos 15 maiores municípios do Estado, entre 2007 e 2014, houve mais de 28 mil internações por causa de diarreia; mais de 31 casos de dengue notificados e 372 casos de leptospirose, entre outros.

O presidente-executivo do Instituto, Edison Carlos, resume a indignação dos especialistas em relação a números tão alarmantes.

“De forma geral, é lamentável termos índices de saneamento básico de países subdesenvolvidos, sendo o Brasil a 8ª maior economia do mundo. Rondônia está entre os estados com indicadores mais preocupantes nos serviços de água e esgotamento sanitário, o que comprova que as autoridades não se atentaram ainda para o grande problema que a falta de saneamento traz à saúde das pessoas e ao meio ambiente”, comentou no relatório.

Também em relação ao tratamento de água, há sérios problemas. Poucos, como Romeu, têm água potável.

“Na minha casa se diz que chega água potável. Mas existem dúvidas. Existe a Estação de Tratamento. Mas às vezes a água vem marrom da torneira. É verdade que a água do rio é amarronzada. Mas se houvesse tratamento adequado não deveria chegar marrom.”

Mesmo assim, Romeu segue acreditando em sua região, muito mais pela potencialidade do que pelas autoridades. Desde cedo ele desbravou Guajará-Mirim, brincando no leito, correndo na mata, contemplando, atrás do brilho da água, cardumes de tambaquis e pirapitingas.

O pai dele, João Evangelista de Miranda, nasceu no Rio de Janeiro, mas se radicou em Rondônia há cerca de 40 anos. Até hoje tem uma empresa de navios que faz as travessias para a Bolívia pelo Rio Mamoré.

“Não vejo muitas perspectivas em relação ao saneamento e outras coisas, porque são situações que não aparecem e não dão votos para políticos. A não ser que haja uma Lava Jato por aqui. Mas acredito na região. Acredito que as pessoas possam evoluir com ela. Voltei por amor à minha terra,” destaca Romeu.

E se a exuberância do local contrasta com suas carências, Romeu aponta uma solução. Sem verbalizá-la. Mostrando apenas a importância da consciência, para sanear a vida de qualquer cidadão, lembrado apenas na época de eleição.


Fonte: R7

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