11 de fevereiro de 2019

Coluna Almanaque: O SHOW JÁ TERMINOU...

Por Fábio Marques
Coluna Almanaque: O SHOW JÁ TERMINOU...

Por Fábio Marques
Mesmo sabendo que quebraria a cara, o poeta resolveu encarar três mil quilômetros de rodagem para rever Beatriz Afonso, sua amada imortal. Afinal, para o poeta as outras mulheres, em relação à sua musa, eram apenas mulheres. Diferente de Beatriz, que era a mulher de sua vida.
Os tempos em que estavam sempre em sintonia, eram um pelo outro, tinham os mesmos sonhos e desejos, eram apaixonados e por mais obstáculos que se erguessem, a tendência era que o amor entre os dois fosse aumentar mais ainda, ficara no passado. A frieza de Beatriz nos últimos tempos estava lhe causando mal. Para completar, a distância acabou por transformar a relação numa coisa platônica, estéril e abstrata.
Em suas lembranças, o poeta gostava de recordar que Beatriz dissera que nunca havia deixado de nele pensar sequer um dia desde quando partira de vez para o Planalto Central. E que nunca havia conseguido amar outro homem porque seu ideal de homem era o poeta. Uma das mensagens que mais o marcaram rezava: “Sei que você não acredita em Deus. Mas queiramos ou não, foi Deus quem me trouxe você de volta. Deus atendeu minhas súplicas, amor da minha vida. Você é o meu tudo, meu gato, meu gostoso, meu lindo! Te amo, te quero, te desejo!
Existem coisas nesta vida que não se combinam e nem se compactuam de jeito algum. Exemplos? O Super-Homem e a kriptonita, a boa música de verdade e o esgoto cultural que vomitam os cantores sertanejos, os ganhos salariais de um pobre jornalista e os proventos de um promotor de justiça, os trancos e barrancos de uma vida fudida e o dia-a-dia de quem possui status social e alta conta bancária, o amor em toda sua essência e o apego quase animal ao dinheiro.
O problema de todo casal é quando a questão do dinheiro entra na conta-corrente da relação. Quando isso ocorre o amor se corrói. O amor em sua ciência exata tem a ver com a química de pele, com a troca de olhares, com a sintonia de espíritos. Não se sustenta numa mesa de contratos e negócios. Amor é somatório e cada qual deve dar de si aquilo que possui de melhor. E nem sempre isso é dinheiro. Numa relação a dois cada um deve entrar com seus valores e objetivos comuns. Daí é se esforçar para que a química de pele e a sintonia entre as almas possam carregar e suportar todo o desgaste.
Frente à frieza de Beatriz que estava passando por uma série de problemas, tanto no âmbito da saúde física, como na questão familiar e emocional, toda esta carrada de lógicas e preceitos soaram apenas como blábláblás. Não andavam mais de mãos dadas pelas ruas da cidade, não se beijavam, não se tocavam, quase não se falavam. A erupção de emoções do poeta barrava agora no iceberg ilhado no coração de Beatriz. Por amar demais seu jeito de amar e sentir saudades de tudo aquilo que fôra um dia, chegara a lhe perguntar se jurava que não sentia mais a falta de um carinho, de um chamego ou até mesmo de uma palavra de amor bem suave no meio da noite.
De forma ríspida, Beatriz respondeu-lhe que não. E que o poeta não voltasse nunca mais...
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