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Publicado em 1 de abril de 2019

Coluna Almanaque: MOMENTO DE CLAREZA

Por Fábio Marques
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Por Fábio Marques
Aquele ano não havia sido dos melhores para o poeta. Como tinha o costume de rir de suas próprias desgraças, pelo trânsito que possuía na estrada da dor, achava apenas que a miséria humana já fazia parte de sua vivência. No começo do caos temporal, ainda estava nas graças da influência de pessoas amigas que queriam lhe levantar. Mas por não concordar com coisas erradas que ocorriam a olhos vistos no local de trabalho, acabou a jornada sob a chibata do assédio moral de um troglodita a quem procurou ajudar de forma política, mas que no abuso do poder, por inveja e despeita, lhe humilhou e lhe fez adoecer. Aos amigos que, sabendo de sua situação, deram aquele empurrão, agradeceu-os um por um. Às vezes vale a pena experimentar a ingratidão até encontrar seres humanos que sejam gratos.
Mas aquele dia era especial e queria compartir com seus leitores. Ao sentar-se frente ao notebook para escrever mais uma crônica, começou a fazer um balanço de tudo o que fôra vivido nos seus mais de 50 anos de passagem por este planeta. Aproveitou o primeiro parágrafo para pedir perdão à sua família pelo fato de não ter vencido na vida e por ter sido incapaz de ganhar dinheiro. Disse que gostaria de poder abraçar seus filhos e dizer que estava sofrendo por eles. “Como gostaria de abraçá-los e pedir-lhes perdão pelos fracassos de minhas empreitadas nesta vida, ou ao menos lhes colocar a par do inútil que foi minhas batalhas, apesar da certeza das porradas do dia-a-dia. Mas nem por isso tenho deixado de batalhar”, digitou quase às lágrimas.
Sub-burguês traído pelo contrato social, o poeta tinha todos os vícios e defeitos da burguesia, uma vez que todas as escolhas que lhe ofereciam eram escolhas burguesas. E do jeito que a vida queria ia seguindo aos trancos e barrancos, errando aqui, quebrando a cara acolá e tocando em frente. Aos soluços batucou no teclado do aparelho sem conseguir concluir: “Para vocês meus filhos, hoje eu diria o seguinte: Gostaria de ter sido aquele paizão amigo que poderia... Olha, que poderia... Sei lá, cacete... O pai que eu deveria ser”.
Quase na conclusão do texto recordou que um dia havia chamado a atenção de um amigo que resolvera virar hippie depois dos 40 anos e recebeu uma lição de moral que nunca mais esqueceu: - “Mas quem é você para falar da minha maconha com este copo de cerveja na mão?”. Naquele instante sacara que havia dado uma ratada. O amigo lhe chamara de hipócrita e estava com toda razão. Uma vez posta nua e crua a verdade, escancarou-se o problema da equação: um oceano de remorsos submergiu-lhe à consciência. Começou a desenhar seu auto-retrato: Arrogante? Era sim. Boçal? Também. E metido à besta, vaidoso, birrento, nervoso, vingativo, ansioso, anti-social, mal-educado, pessimista, mesquinho, ignorante e chegado num birinaite, bêbado. Quando se deparou com a fotografia, se assombrou com a imagem. Estava fudido! Como é que iria superar o exército maligno e negativo que residia em sua alma?
Estava pagando pelos seus pecados. Tudo o que havia tentado na vida se resultou em fracassos. Mas ainda assim achava que estes fracassos eram suas vitórias, uma vez que iria detestar estar no lugar daqueles que o venceram.
Que descanse em paz...

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