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Publicado em 18 de março de 2019

Coluna Almanaque: DANOS E PREJUÍZOS

Por Fábio Marques
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Por Fábio Marques
Há mais de uma semana sem nenhum dinheiro no bolso, o poeta resolveu se recolher de vez ao recesso de sua quitinete. Aqui e acolá ainda dava uma passada rápida pelo Mercado Público e pelo boteco do Clóvis a fim de rever os amigos e se inteirar das últimas. Quem tem dinheiro tem liberdade de movimentos. Como não tinha um centavo, a melhor coisa a fazer era se entocar.
Em seu moquifo ao menos conseguia encontrar a calma e a paz necessária para concatenar idéias e fazer elucubrações sobre as variantes e variáveis da vida, coisas difíceis nos tempos em que passara casado. Isto porque todas as vezes que parava para se concentrar a fim de trabalhar uma redação, aparecia sua ex-consorte para lhe aporrinhar: “Mas afinal quem você pensa que é? Por quanto tempo você ainda vai continuar com esta farsa, se fingindo de vítima? Por quanto tempo você vai continuar metendo o pau nos outros nos artigos? Já estou cansada de passar vergonha por tua causa”. Existem pessoas que jamais irão entender que quando um escritor insulta alguém, é como se tivesse pedindo socorro. Quando um escritor machuca alguém, o faz somente para chamar a atenção deste alguém sobre si mesmo.
Nestes dias de dureza e solidão, antigos flashbacks vinham-lhe povoar a cabeça. Lembrava que há uma porrada de tempos manteve o seguinte diálogo com uma senhora muito bem casada e muito mal comida: - Escuta aqui, você fala mal do teu marido quando está aqui comigo nesta pocilga de motel, mas renunciar ao conforto que ele te dá para ficar comigo, você nunca vai querer, não é mesmo?
- E você por acaso é diferente? Vive de criticar esta gente que você chama de burguesa e ao mesmo tempo convive com ela. Por quê insiste em ser o ridículo de todos?
- Acontece meu amor, que minha melhor vingança contra esta gente é exatamente estar ao lado deles, tomar a cerveja, comer os tira-gostos, ouvir suas idiotices e não pagar nada por isto. Sinto-me como um Robin Hood fazendo justiça comigo mesmo. Por exemplo, o seu marido engana e rouba os fregueses no comércio de vocês e eu roubo a mulher dele para fazer justiça. Roubo a mulher dele e dou para o pobre e lascado que sou eu.
No dia-a-dia de suas relações pessoais, vez por outra era obrigado a escutar coisas do tipo: “Esses caras metidos a intelectuais são uns artistas. Vejam este filho da puta aqui. Enquanto todo mundo dá um duro danado, o bonitão só na boemia bebendo cerveja todos os dias”. Todas às vezes em que isto acontecia ficava calado, pois sabia que mandá-los à casa do caralho lhe parecia pouco.
Ocorre que nesta vida é preciso ter os contatos certos, participar de alguma associação, igreja, Rotary, Lions, Maçonaria, qualquer coisa. Além disso, é preciso saco para suportar a ignorância de algumas pessoas nas rodas de conversas. Cabeças pensantes nem pensar! É claro que também conhecia gente que fazia parte da conjuntura deste estado de coisas que possuíam cultura suficiente para deixar calada a mediocridade ambiente. Mas era a mínima minoria.
Ainda assim mantinha-se aberto ao diálogo com estes círculos de elite desde, é claro, dada sua situação de penúria exposta, viessem na companhia de cheque, dinheiro ou vale-refeição.
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