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Publicado em 21 de abril de 2017

Crônicas Guajaramirenses - Eurácio e as melancias

Por Paulo Saldanha
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Por Paulo Saldanha
Convém decifrar, de plano, esse sujeito com tantos predicados, conhecido informalmente como Eurácio Torito, morador transitório nesta fronteira Brasil/Bolívia, em Guajará-Mirim.
De vez em quando o vejo por aqui e conversamos descontraidamente. Como parece ser elemento tosco, vejo-o além: para mim, pelas reações, nem bipolar chega a ser, ultrapassa esse limite... é multipolar. Às vezes é um lorde, noutras um monge tibetano; costumeiramente se transforma em insano cidadão, embora sempre trazendo consigo a rara inteligência que o privilegia. Mas a deseducação não o aperfeiçoa nas sendas da sabedoria.
Quando menino ele tinha uma tara: comer melancias ao alvorecer, ao meio dia e ao despedir do sol, em qualquer lugar e a qualquer hora que fosse possível.
Agora decifro a melancia, segundo os dicionaristas: “o nome de uma erva trepadeira rastejante originária da África.”
Eram, aqui e naquela época, caras e escassas.
Desde os cinco anos Eurácio sonhava com as tais melancias. Garotinho ainda, era cabeçudinho e barrigudinho - em face da enorme pança que disfarçava as toneladas de bichas que guardava em suas entranhas e que mexiam e remexiam ensandecidas, querendo receber em seus interiores a cor vermelha das famosas “Citrullus lanatus”. E repito: àquela época, frutas raras e de alto valor.
E também compondo o físico de Eurácio, naquele tempo, já com onze para doze anos, se viam suas canelinhas secas e finas, riscadas pelos cortes de arame farpado das casas vizinhas para onde convergiam as suas andanças buscando recolher também cajás, cajaranas, abacates e mangas, canelas essas que mais pareciam gravetos de mata terciária, tortas e sujas, tisnadas de carvão.
Um dia, Rinaldo dos Anjos Arcanjo convidou Eurácio para passear no seu sítio, um lugar aprazível na beira do rio. E ele foi exultante! Parecia pinto no lixo, feliz da vida pela oportunidade do passeio...
Lá chegando, seus olhos pareciam estar descortinando o Paraíso: viu uma plantação de melancias em instante de colheita. E perguntou Eurácio a Rinaldo, incrédulo:
–Colega, coleguinha, esse melancial é todo teu?
Em seguida teve uma vertigem em face da violenta emoção que lhe dominou! Jamais havia tido tal visão: uma colossal plantação daquela planta rasteira, verdinha, verdinha e com aqueles abençoados frutos redondos e enormes. E acabou meio que desmaiando, em transe. Nessa alucinação que lhe tomou intuiu que aquelas melancias eram suculentas e doces, com a sua polpa avermelhada lembrando os lábios carnudos da Claudia Cardinale (atriz italiana bonita e sensual famosa nos anos 60), que, entreabertos, faziam-lhe um convite à volúpia de um beijo. Mas tal lascívia não lhe interessava, visto desejar apenas tragar goela abaixo a polpa ‘encarnada’ (diria meu pai) do abençoado fruto.

Todavia, no seu sonho aparecia agora um homem interferindo durante o degustar da terceira melancia imaginária, dizendo-lhe:

–Colega, essa fruta africana revela possuir alto teor de água e carboidratos, sais minerais e complexo “B”, bem como cálcio, ferro e fósforo. Mas entre ela e a Claudia Cardinale aí ao teu lado, eu fico com a Claudia!

E Eurásio, ainda no transe:

–Pois então fique com a Claudia, seu ‘desinfeliz’, e não me atrapalhe, pois nesse melancial todo eu sacio o meu desejo carnal...

E então Eurácio acordou do desmaio, embrenhou-se rastejante naquela plantação verdejante e esparramada e comeu não uma, nem duas e tampouco três melancias, e sim onze delas, que estavam violentamente aquecidas em razão do sol a pino. Logo ao dar a última mordida na última porção da décima primeira melancia, seus olhos quase saíram das órbitas, ficando cegueta temporariamente e com as pernas secas totalmente bambas... Mal chegou à sua casa, caiu no alpendre. Foi socorrido.

Horas depois o médico lhe receitava um chá bem forte das folhas de abacateiro, posto que uma diarréia, uma violenta infecção intestinal, estava consumindo a vontade de viver de Eurácio Torito, o menino que adorava melancias.

E ele sobreviveu e está aí comemorando seu aniversário, ainda cabeçudinho, barrigudinho, de canelas secas e bunda chocha, fazendo raiva aos homens e mulheres de boa vontade!


* PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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