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Publicado em 4 de novembro de 2016

Crônica Guajaramirense - A Mangueira Transplantada

Paulo Saldanha.
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* Paulo Saldanha
Araldo da Anunciação era proprietário de 23 hectares no Iata, às margens do ainda Mamoré, já na iminência de formar o Rio Madeira alguns quilômetros abaixo, no lugar onde suas águas se encontram com as do Rio Beni.
Interessante: se um soberbo de plantão não tivesse dado o pontapé inicial errado, o Mamoré, continuando com esse nome após a junção com o Beni, seria um dos maiores rios do continente sul-americano... Com nome bonito, regional, o rio nascido nas entranhas do altiplano boliviano correria livre e solto sob essa pomposa denominação até encontrar-se com o Solimões, sem ter que ser alcunhado com o nome de Madeira. Se, pelo menos, fosse rio dos Caiaris!...
Sem críticas mais a fazer, desejo apenas contar que Araldo, logo que se mudou para o sítio, foi fazendo a casinha de barro coberta com a palha ouricuri. Depois de lá instalado, cedo pela manhã ou a partir das 17 horas de cada dia envolvia-se no plantio de fruteiras, entre elas mangueiras, que um dia imaginava vê-las frondosas e reprodutivas.
E assim ele foi admirando o ganhar de corpo daqueles vegetais tão altivos por ele semeados e que lhe dava um orgulho danado ao vê-los bem desenvolvidos. Veio a primeira safra; a segunda e a terceira foram por demais venturosas. Esculpiu com o canivete, no tronco da mangueira mais exuberante, um coração contendo o seu nome, de Genesina, sua mulher, e uma data: 18/10/1944.
Na quarta safra, porém, os papagaios não lhe davam sossego e “roubavam” os frutos saborosos, com o que passou a discordar. Iria impedir que aqueles uns lhes retirassem o sustento. E pôs-se a maquinar um ardil, concluindo que aquela mangueira que produzia a melhor ‘manguita’ daquele entorno seria besuntada com uma cola que descobrira na Bolívia e que grudava mais do que praga de sogra em desditado genro traíra.
Chamou um dos filhos, o mais velho, conhecido como Cantiguento, e lhe ordenou: “Catinga, passe essa goma em todos os galhos próximos das mangas, pois vou pregar esses papagaios bem grudados e ainda os farei virar farofa para toda nossa família”.
E Catinguento não contou miséria e distribuiu cola em abundância. Vieram os papagaios e, um a um, foram ficando com as patinhas agarradas na mangueira. Sons de desespero e palras de pânico foram ouvidos a 25 quilômetros do local, já que os papagaios faziam força batendo asas e não conseguiam sair do lugar. A agonia e os estertores dos psitacídeos foram observados por Araldo da Anunciação, enquanto ele, sadicamente, sorria por dentro. Armara uma arapuca dos diabos para aquelas ‘feras’...
Um dentre os papagaios passou, no entanto, a dar ordens. Ficavam em silêncio por alguns segundos, e parecia que ele, o líder daquelas aves de penas verdes, contava “UM, DOIS e TRÊS”!!!
De repente, não mais que de repente, numa gritaria infernal, o esforço combinado dos papagaios fez balançar aquela mangueira que vivenciaria o centenário... E no balanço, estrebuchando-se, foi sendo erguida como se uma força descomunal e invisível a impelisse para cima, como se o rotor de um helicóptero fosse movimentado impulsionando aquela imensa árvore.
–Veja, Cantiguento, meu filho, os papagaios estão batendo as asas com tanta força que estão arrancando a mangueira! Ela está subindo! Olhe, ela já está a mais de cem metros daqui... Pronto, sumiu na direção da Vila do Abunã...            
Passaram-se dez anos. Um dia, Araldo caminhou em direção ao Abunã. Foi visitar seu compadre Aniceto, um antigo morador do Iata que se bandeou para aquele lugar. Foi chegando, assobiando como era do seu jeito de chegar. O amigo abriu os braços e louvou a Deus pela visita. E muitas recordações foram ali estendidas por sobre a mesa da cozinha, até que resolveram passear no quintal. Lá chegando, Araldo quase não acreditou no que viu e disse:
–Mas, compadre, o que é que essa minha mangueira levada pelos papagaios há tanto tempo está fazendo aqui?
–Pois olhe, seu menino... Há uns dez anos, num novembro desses de um aguaceiro sem igual, não é que uns papagaios histéricos me trouxeram essa mangueira? Parecia que eles estavam colados com um grude nas patinhas. E a enterraram aqui nesse lugar, onde eu estava começando a cavar o poço! Já tinha cavado quase 2 metros... Essa árvore é das boas e só manguita especial, doce como o mel, ela vem produzindo...        
–Pois olhe, digo eu: veja o coração que eu desenhei com a data de meu casamento com Genesina! Leia: 18 de outubro de 1944. E trate de levar de volta essa árvore, que é de minha propriedade! - disse Araldo, em tom imperativo.
–Só se eu tivesse poder para chamar os papagaios! Com a chuva forte, a cola que lhes pregava os pés foi derretendo, derretendo, até que derreteu tudo e os bichinhos se livraram daquela crueldade. E eu ganhei esse presente do céu.
Aniceto tinha estopim curto e não gostou do tom insolente do seu compadre. Partiu logo para a ignorância:
–E vá embora daqui, seu filho de uma égua, que sua visita me enoja... E se não quiser ir para sua casa, ‘entonce’ que vá para a PQP!
E deixou o amigo falando sozinho...
Se eu fosse leitor não daria crédito a esse “causo”...
PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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