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Publicado em 18 de outubro de 2016

Crônicas Guajaramirenses - O FAZENDEIRO, O PEÃO E A ONÇA

Por Paulo Saldanha
* Por Paulo Saldanha
Espera-se de um peão conhecimento sobre o manejo do gado, habilidade para consertar currais, porteiras, cercas; enfim, capacidade para auxiliar no gerenciamento da propriedade, tomando decisões, cumprindo as determinações e mandamentos do patrão.
Ocorre que Sigefredo da Anunciação Profeta, patrão reconhecidamente generoso e bom, teve que despedir o recém contratado Januário de Jesus Dias quando retornou à sua fazenda e deu de cara com uma onça amuada, ensanguentada e bastante ferida.
E o interessante é que, nesse retorno, quinze dias após a última inspeção, observou que o imóvel estava bem cuidado... mas não poderia concordar com o que acabou vendo.
Bem: Januário era magro, cerca de 1,75 de altura, dois dentes de ouro em cada canino. Usava uma reluzente pulseira dourada, dois revólveres, punhal brilhoso, e valia-se de um chapéu preto e de umas botas de cano médio sempre bem lustradas. Nos dois mindinhos, umas unhas maiores, com cerca de 1 centímetro e meio para fora do dedo, para que, com elas, pudesse cutucar e limpar os ouvidos. Na face esquerda, um risco, cicatriz de uma briga na Zona do Periquito Doido, quando fora cortado por um pedaço de garrafa de cerveja Brahma, casco escuro.
Poder-se-ia dizer que, a exemplo de Torito Eurácio, era um bruto, um tosco, despojado de bons modos, denunciando que, embora valente, era bem rude...
Sigefredo viu no curral cerca de 1.100 vacas guardadas à espera de vacinação. O veterinário do Governo estaria chegando bem cedo pela manhã. Uns ajudantes já tinham sido ultrapassados pela Rural Willys do dono da estância e vinham trotando devagar, cantarolando pela estrada interna.
Observador, notara que era trabalho para mais de um homem a manejar o rebanho para vaciná-lo sem atropelos, encaminhando os animais rumo ao curral.
–Parabéns, Januário! Você fez esse trabalho com mais aqueles dois peões?
–Não sinhô, eu ‘truxe suzinho’ toda essa ‘vacalharia’ junta... Só não ‘truxe’ um garrote pintado, brabo como o Cão!
–E onde este está acoitado? Digo, onde esse garrote ficou?
–Está amarrado num poste de itaúba logo ali, a uns 80 metros. O sinhô quer ir lá?
Para lá foram. E o patrão se surpreendeu! O animal estava mordido nas duas orelhas, sangrando muito na boca e na língua, unhas quebradas, cegueta de um olho... no rabo comprido havia sido dado um nó cego. O brutamonte gemia que dava dó. Com o olhar do olho bom pedia uma intercessão, um apoio moral, ou para que se encaminhasse a sua pobre alma em direção ao Paraíso.
–Esse bicho, patrão, é feroz! Lutou bastante, mas eu amansei ele... Até ‘mordê’ eu mordi ele; dei tapa, chute, mordi a língua dele, estapeei as fuças e bati nas ‘oreias’ dele. Mas ‘num’ consegui trazer ele não! Ele até me ‘azunhou’, veja! - mostrou os braços e abaixou as calças para mostrar as pernas e as coxas dilaceradas.
- Januário, você pegue as suas tralhas, vou-lhe pagar tudo e mais alguma coisa, mas você está despedido.
–‘Pru quê’, patrão?
–Você quase matou a onça de estimação de minha mulher!.. - mentiu, estranhando o fato do peão desconhecer que brigou com uma onça das baitas...
“Imagine” - pensou ele, o patrão Sigefredo da Anunciação Profeta – “Se ele fez tudo isso com um felino enorme, o que não fará comigo, que sou amante da paz e da concórdia?”

* PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
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