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Publicado em 31 de outubro de 2016

“A Amazônia me fez descobrir a minha negritude” afirma fotógrafa Marcela Bonfim

Marcela apresenta exposição fotográfica "Amazônia Negra", em Belém, com acervo de 33 imagens
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Barbadiana Ursula Maloney integra a mostra da fotógrafa Marcela Bonfim / Marcela Bonfim
Sabemos de fato quem somos? Quantas vezes nos olhamos no espelho e identificamos ali nossos traços ancestrais? Algumas pessoas criam uma imagem que não as representam, mas que são aceitas pela sociedade ou por vezes preferem, simplesmente, quebrar o espelho e não se encarar. Muitas vezes esse espelho foi quebrado pela fotógrafa Marcela Bonfim, paulistana da cidade de Jaú, 33 anos, hoje reconhecida como mulher negra e moradora na cidade de Porto Velho, em Rondônia há 7 anos.
Marcela apresenta em Porto Velho a exposição fotográfica "Amazônia Negra", que faz parte do projeto (Re) Conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências negras na floresta. O projeto tem parceria com SESC-RO e está na terceira temporada. A abertura acontece no 21 de maio no Espaço Cujuba, depois foi para o Palácio do Governo de Rondônia e agora está no Instituto Federal de Rondônia (IFRO). No mês de novembro, a exposição vai correr cinco municípios do interior do estado.
O acervo de 33 fotografias é resultado do registro que Marcela fez em Porto Velho e comunidades quilombolas do Vale do Guaporé, na procura de descendentes de africanos que contribuíram com o desenvolvimento de Rondônia. Mas, antes de ser apenas uma exposição fotográfica, é também um projeto pelo fortalecimento da negritude da própria paulistana.
Formada em economia pela PUC-SP a militante pela causa das populações negras e povos tradicionais era outra Marcela até os 25 anos. Ela se considerava uma negra embranquecida, acreditava no discurso da meritocracia. Ouvia dos pais que se estudasse conseguiria ter um bom emprego e ser feliz. Também baseado nesse discurso criticava as políticas de ações afirmativas, como as cotas raciais, e dizia que eram mais uma demonstração de preconceito e racismo, palavra essa que não enxergava dentro da sua realidade.
Marcela vestia por cima da pele alguns disfarces para ser aceita. Na turma do colégio recebeu o titulo de a mais engraçada, era a palhaça da sala de aula, a mais risonha, e assim a economista levou a vida. Acreditou em um mundo possível, com portas abertas e livre circulação, sem nenhum impedimento. Mas ela se enganou e foi durante a busca pelo primeiro emprego que o mundo dela ruiu e os disfarces não funcionavam mais, a cor da sua pele agora estava amostra.
Já em Rondônia, para enfrentar sua negritude, Marcela comprou um máquina fotográfica e começou a fotografar homens, mulheres, crianças, jovens e velhos negros e negras na Amazônia em comunidades quilombolas, rituais de terreiros de candomblé, festejos religiosos, penitenciárias. O registro também buscou retratar o negro em seu emprego, na grande maioria exercido em atividades domésticas.
As lentes também captaram a resistência pela preservação da cultura e costumes e a beleza da estética negra. A fotografia foi um resgate da própria identidade de Marcela enquanto mulher negra e foi na Amazônia que ela "enfrentou" a cor de sua pele.
Em Belém para participar de uma mesa de debates do projeto Foto Ativa, Marcela falou com o Brasil de Fato de forma corajosa sobre sua vida e seu projeto.
Brasil de Fato: O que é o projeto (Re) Conhecendo a Amazônia negra: Povos, costumes e influências?
Marcelo Bonfim: Esse projeto trata dessa negritude, desses fluxos migratórios negros. Eu sou um fluxo migratório negro na Amazônia, e hoje eu vejo que esse projeto de fotografia acabou me salvando. Cada retrato foi um autorretrato. Crianças, idosos…Fui fotografando o que tinha em mim. Eu não achava negro bonito até os 25 anos. Eu posso dizer pra você seguramente. É vergonhoso? Hoje eu não sinto vergonha não, eu estou pronta pra encarar essa história, querendo ou não é a minha história, eu não posso negar isso. Eu tinha vergonha de mim e do meu povo.
Ao mesmo tempo em que ele é um resgate da minha história pessoal, ele é uma militância, aquela militância que eu nunca fiz. É um projeto de militância que chama essa negritude. Poxa, a gente precisa reconhecer essa negritude amazônica, que é uma negritude esquecida, ela tem esse foco na Amazônia. Eles [negros e negras] construíram a Amazônia, só que ninguém fala sobre isso. Ao mesmo tempo, o projeto também é essa tábua de salvação comigo mesma. Ele trás um pouco de dignidade não só pra mim, como para outros negros da Amazônia.
Ele ainda está num processo de construção muito grande, cada dia eu vejo o que eu posso fazer com ele, e é muito coisa.
E como foi a caminhada para chegar nesse projeto?
Para chegar nesse projeto eu precisei ir para Amazônia. Eu me formei em 2008. Em 2009 ainda estava em SP tentando arrumar emprego, foi quando eu recebi um convite de uma amiga para trabalhar numa financeira do pai dela em Rondônia. Era a única coisa que eu tinha, eu estava endividada, tinha um ano de carência pra pagar metade da Bolsa e assim eu vim pra Amazônia.
A partir do segundo ano que eu estive em Rondônia, eu prestei um concurso publico temporário na Universidade Federal de Rondônia, fui dar aula de economia em uma cidade do interior chamada Guajará-mirim. Consegui um emprego comissionado no governo depois, trabalhei em bar, eu fiz várias funções, e a partir daí eu estava com uma vida muito vazia, ainda não sabia o que fazia com a minha negritude, estava na onda da sobrevivência. Foi quando eu comecei a pensar como eu faria para encarar a minha cor. Eu não tinha encarado. Eu mal me olhava no espelho, eu não tinha intimidade comigo, foi quando eu resolvi comprar uma câmera fotográfica.
Foi a fotografia que te ajudou a encarar a tua negritude?
Eu nunca gostei de sair em fotografia, e hoje eu tenho certeza que era por causa da cor. Comprei uma câmera fotográfica e com essa câmera me serviu como muleta. Com essa câmera eu fui pela primeira vez no terreiro, que eu sempre demonizei. Chegando ao terreiro eu pude perceber que não era nada daquilo o que eu imaginava. Depois do terreiro resolvi conhecer comunidades negras, fui até um quilombo, visitei Mato Grosso, Vila Bela da Santíssima Trindade e comecei a perceber que em Porto Velho mesmo tinha uma negritude muito rica. Então fui conhecer os barbadianos, essa galera que veio pra construção da Madeira Mamoré, a primeira mão de obra assalariada negra no Brasil. A partir daí eu comecei a me interessar mais sobre essa negritude e comecei a ver que Rondônia era um berço de pessoas como eu, talvez, figuras que não se encaixaram onde estavam e foram procurar um novo lugar.
Fui para as periferias, para a rua, presídios, trabalhei muito tempo nos presídios. A cor do presidio ela é negra e jovem. Esse processo foi muito doloroso, de ver o quanto tempo eu perdi comigo mesma, pensando em outras coisas. Percebi que passei muito tempo olhando para outras coisas, vislumbrando uma coisa que não era minha, era branca, e fui conhecendo a historia dessa negritude, a minha historia.
E encarar isso pra ti como tem sido? Como é a Marcela hoje?
Essa Marcela de hoje ela tem consciência do que ela fez e do que ela faz. É completamente diferente de antes, por mais que eu tenha negado essa cor, por mais que eu tenho feito um desserviço a mim mesma, não é me isentar da minha responsabilidade. Hoje, uma das bandeiras de luta do projeto vem no sentido de tentar ressignificar e também colocar numa pauta de discussão a educação oficial. Eu fui educada numa escola particular branca, eu fui a primeira menina negra a entrar na escola. Eu fiquei sozinha, eu e meu irmão, ele tinha a pela mais clara que eu, por isso foi o primeiro a ser aceito, mas antes de eu ser aceita eu precisei me transformar num tipo de uma palhacinha da turma, eu era a mais engraçada, eu tinha sempre o que falar, eu estava sempre disponível pra uma aventura, um bom papo, era uma criança assim sorridente. Eu me transformei numa atração para ser aceita naquela escola e fui aceita.
Quem é o negro em Rondônia?
O negro em Rondônia desde os primeiros fluxos migratórios até hoje, é invizibilizado. Ele é uma figura praticamente inexistente. Se você vai à capital de Porto Velho você pouco vê, tem algumas figuras como os barbadianos, que seriam os mais famosos desses negros, porque eles têm uma história muito linda, uma história reconhecida pelo presidente Getúlio Vargas na época. Eles implantaram telégrafos, eram engenheiros, levaram educação, mas são muito pouco reconhecidos. Hoje a gente tem algumas escolas com o nome desses barbadianos, a gente tem algumas menções, mas faltam menções aos negros que trabalharam no garimpo, na borracha, esses negros que vieram para construir o forte Príncipe da Beira [situado no rio Guaporé, no município de Costa Marques, no estado de Rondônia] porque quando você fala da construção do forte, que era um aparato muito importante de defesa militar que Portugal resolveu fazer na Amazônia, você fala dos portugueses, mas não se fala da negritude.
Foi um contingente de negros trazidos para Rondônia de Vila Bela da Santíssima Trindade e hoje essa herança é materializada na Festa do Divino, que é nada mais nada menos que a sustentação da igreja católica hoje pelos negros do Guaporé, uma festa que dura 55 dias e enfeita todo o Vale do Guaporé. Eles velejam por 55 dias por cerca de 42 comunidades quilombolas e indígenas entre Brasil e Bolívia, levando essa fé religiosa e pouco se fala, pouco se dá o reconhecimento disso.
A história tem esse fluxo negro, não só dos barbados, do Caribe, mas também dos negros nordestinos, negros do Pará, negros do Maranhão.

Os negros do Maranhão e do Pará foram fluxos extremamente importantes para Rondônia, eles construíram Rondônia: as edificações, a borracha, o garimpo, a lavoura. A gente entra pelas linhas rurais ela é toda negra, só que a terra não é do negro, a mão de obra é negra. São fluxos migratórios extremamente importantes que não possuem o seu devido valor, você fala da Amazônia e você tem o índio que é um seio, mas a outra parte desse seio é negra, que construiu junto com o índio.
O racismo hoje é o principal motivo dessa invisibilidade, e esse projeto vem com uma voz: Pera lá, tem negro aqui sim. E dando a devida dignidade, dando a beleza que eu não encontrava em mim, hoje eu encontro nesses negros e negras. Eu não gostava de ser fotografada e aquilo que eu menos gostava existia em mim, tanto a fotografia quanto a minha cor.
As fotografias podem ser vistas no site: http://www.amazonianegra.com/
Edição: José Eduardo Bernardes
Autor: Lilian Campelo

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