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Publicado em 14 de setembro de 2016

Meu pai está enterrado nas águas do Madeira

Por Simon O. dos Santos
Era um dos vários garimpos de ouro que existia em toda a extensão do trecho encachoeirado do Rio Madeira. Não recordo bem, mas penso,  ser o garimpo do Paredão, distante duas horas de voadeira, saindo do local onde o  Rio Abunã encontra o Madeira, em direção a Porto Velho. Devia ser umas nove horas da manhã, pois eu havia acabado de  acordar e estava em pé na parte externa da balsa, observando meu pai colocar seus apetrechos de mergulho.
Com nove anos de idade, não era comum  minha mãe deixar eu acompanhar meu pai nas andanças pelos garimpos, mas como eu estava de férias, ela mesmo receosa, deixou-me acompanhá-lo. Após colocar sua roupa de mergulho e os tubos de oxigênio para ajudá-lo a respirar no fundo das águas barrentas do Madeira, ele veio até  mim, beijou minha cabeça, sorriu e me disse que eu seria um grande homem.
Todas as noites quando me levava para a cama, rezava baixinho e pedia proteção divina para a família e amigos. Ele repetia que eu seria um grande homem. Sorri de volta e disse a ele que o amava. Ele se afastou, caminhou pelo tablado da balsa e sem olhar para trás, pulou nas águas do Madeira. Aquela foi a última vez que o vi e desde então a dor de sua perda me dilacera diuturnamente.
Fiquei em cima da balsa com as outras pessoas, aguardando seu retorno  que deveria acontecer em duas ou três horas. Em vão. Pouco tempo depois, vi que as pessoas se agitaram e tentaram  puxar os tubos de volta do fundo do rio, mas foi impossível. Tudo e meu pai foram soterrados por toneladas de barro e lama que a milhares de anos, desce das encostas do Rio Beni e se aloja no leito do Madeira.
Cresci com aquela frase martelando minhas  entranhas “Você será um grande homem”. A profecia não se cumpriu, a perda de meu pai me levou para os  caminhos sombrios e destruidores do álcool. Aos doze anos, saí da casa de minha mãe e passei a viver na rua como pedinte. Passei a consumir cachaça e o que mais aparece, a fim de encontrar alívio para meus pesadelos. “Sonhava quase todas as noites me afogando nas águas do Madeira”. Nunca mais voltei ao garimpo e nem tive coragem de me aproximar do Rio Madeira, onde meu pai foi sepultado.
A tristeza, a descrença e a solidão eram minhas companheiras inseparáveis. O luto permanente de minha alma, o olhar  frio e raivoso me fazia sentir ódio das pessoas e de Deus. Porque ele levou meu pai tão cedo? Porque ele me privou ainda criança da presença permanente dele? Afundei-me miseravelmente no álcool. As pessoas  me enxotavam quando eu me aproximava. Em alguns bares e botecos da cidade, os proprietários me davam bebida para que eu não perturbasse o ambiente. Virei motivo de chacota e as pessoas riam de meus trapos e de minha sujeira.
Nunca houve uma única pessoa que se aproximasse de mim com o intuito de ajudar-me, de querer saber os motivos de meus sofrimentos, de viver nas trevas desde criança. Nunca tive paz, nunca fui alegre, o meu sorriso carcomido pelas caries se abria somente quando ganhava um copo de cachaça, alívio fugaz das minhas permanentes dores. Virei um caco de gente, um indigente fétido a dormir nas ruas ou nas calçadas.
Muitas vezes apanhei. Espancado, fui empurrado para fora da vida e permaneci na escuridão, sem dó nem compaixão, sem afeto ou um gesto de carinho que me devolvesse pelo menos temporariamente o meu sorriso de criança. Às vezes, durante os temporais da escuridão da alma, eu vislumbrava fugazmente o  braço terno do meu pai, o calor do seu toque acolhedor me levando para a cama. Vivi dilacerado e me agarrando nesses fiapos da memória e nessas lembranças infantis.
Essas lembranças eram o meu pequeno refúgio. Lembro-me do dia em que ele me levou montado em suas costas para comer goiabas no fundo do nosso quintal. Em suas costas eu me agigantava e apanhava as goiabas mais suculentas e apetitosas. Em outra ocasião, ele me levou em suas costas até o portão da escola. As outras crianças ficaram morrendo de inveja e no outro dia vi que algumas delas também vieram do mesmo jeito.
No dia em que morri, eu estava sozinho assim como em  toda a minha frágil  vida de criança. Cai na sarjeta, bêbado e vomitando sangue, estava muito frio e o bafo da lua veio me dá o último beijo. Senti o hálito de meu pai e o toque de sua mão na minha face. Ele me colocou no colo e caminhamos em direção ao Rio Madeira. Mergulhamos juntos e deslizamos por um imenso carrossel formado por pedras e peixes. Vivi e morri sentindo sempre o bafo  da indiferença e do desprezo.
Autor: Simon O. dos Santos

OBS: Estória baseada em fatos reais. Esse rapaz morreu recentemente em Nova Mamoré
 


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