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Publicado em 12 de setembro de 2016

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - My name is Misaque

Paulo Saldanha
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* Paulo Saldanha
Nilton Misaque, Cidadão de Maldonado, no Peru, tem nome bíblico, e é destemido no falar e no agir. Possui uma espingarda de ar comprimido no Calibre 5.5mm para tiros de precisão e potência, seu xodó, sua proteção.
Ocorre que me contaram que Misaque desdenha de qualquer um que lhe dificulte o sono, posto que o tem leve e, tantas e tantas vezes, por conta do trabalho, tem que levantar para averiguações nas noites altas e nas madrugadas transcorrentes.
Seu andar despojado lembra o do artista principal do filme My Name Is Pecus, exibido num dos cinemas de Guajará, na década de 60. Vai daí que...
Não contava ele, todavia, com o deboche do galo Galileu, grande, branco, olhar astuto, pernas enormes, cabeça no rumo do vermelho, esporões desafiadores, pescoço amarronzado. Parecia até que esse galiforme se achava o máximo, via-se como se fosse um touro nelore e ia cantar de galo justamente na janela de Misaque, que foi se apoquentando com esse insultuoso desvario. Um verdadeiro escárnio!
Como era do tipo humano que não dá um boi para não entrar numa briga e oferece mais de 100 para sair de um conflito, eis que Misaque tentou uma solução intermediária e fez um cercado no galinheiro e decidiu que nenhum daqueles representantes dos galináceos poderia sair do espaço reservado para esses temerários bípedes de penas.
Ocorre, que reiteradamente a porta do galinheiro, por decuido, era deixada aberta e, insolentemente, o Galileu ia cantar na janela do senhor proprietário, infernizando a vida do profissional que dormia pouco quando estava de plantão. E, incomodado, um ódio mortal passou a ser ensaiado pelo dono da espingarda de pressão. Avançar na jugular do Galileu era uma palavra de ordem!
Comprou roupa de cangaceiro, inclusive aquele chapéu específico, botas de couro cru, um óculos bem escuro, pulseira de ouro duvidoso e um relógio de algibeira. Munição para ar comprimido tinha de montão. –“Ai, se te pego”...
Até que o auxiliar responsável pelo galinheiro, distraído, abriu a guarda e a porta do espaço. O sol ainda estava espreguiçando-se no fim da madrugada, quando Galileu foi cantar justamente do lado aonde Misaque dormia seu sono mais reparador. Cinco e trinta da manhã o galo atrevido, acordado pela forte lâmpada-com foto célula, vingou-se do responsável que o instalou no poste alto, razão por tê-lo feito madrugar e cantou, e cantou–... ora desafinando, ora como um tenor mal ensaiado, ora como um barítono medíocre, o que soou como uma agressão, uma invasão à geografia e aos ouvidos alheios.
A carabina foi buscada, osculada e municiada. O Galileu, intuindo que seria sacrificado, escafedeu-se e, em desabalada carreira, rumou em direção ao mato. Com ele valia a recomendação: é mato ou morro! Escondeu-se no mato! E ali ficou até tarde! Sabia que o ódio pressentido acabaria com o tempo que deu a si mesmo.
Escapou fedendo, naquele dia! Melhor escapar fedendo do que ser morto cheiroso...
Galileu, esquecendo-se do risco do dia anterior, eis que, na parte vespertina ousou cantar bem próximo do quarto de Misaque, precisamente às 14h04m.
Assustado Misaque, atordoado com aquele som estridente, veste-se com a parafernália comprada, pega a arma e parte no rumo da porta e mira na pupila do olho esquerdo do inimigo. Um estampido é ouvido. A cena é trágica e cômica, pois Galileu, que tinha sido ator e atleta na juventude, dá um salto carpado e, esvaindo-se em sangue, pedindo perdão por seus excessos, expira, endurece as pernas e fica inerte, às 14H06m.
Um sorriso de soslaio é observado! Misaque ficou vingado e aquela família desfalcada do galo varão, um dos poucos que, sem valer-se do 36 horas, fazia a alegria própria e de quase todas as galinhas do pedaço...
Ao cair da noite, desmoralizado, foi servido como canja de galinha, enquanto que, com o olhar perdido no espaço o autor do delito nem demonstrou remorso algum, pois afastou um inimigo, de baixo coturno; nem por isso deixou de ter o peito tufado de orgulho por alimentar a família...
O Galileu saiu da vida e, temporariamente, ficou na história...
Misaque não sabe, porém outro galo está sendo treinado para lhe infernizar o sono...

* PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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