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Publicado em 30 de setembro de 2016

Crônicas Guajaramirenses: E, pior: era mesmo um penico

Por Paulo Saldanha
* Por Paulo Saldanha
Esta história me foi repassada pelo meu amiguinho e irmão Paulo Cruz Rodrigues,
guajaramirense dos ótimos e com talento para a escrita. A cena ocorreu aqui na cidade, possivelmente nos anos 60 (pouco antes, talvez).
“Certa feita, ao entardecer, estávamos eu e minha genitora sentados à frente de casa, coisa muito comum à época e, como de costume, levando um papo com a vizinha de frente, mulher líder, simpática, conversadora e curiosa”. E me embalei nessa história...
E eu acrescento: era mulher jovial, alegre, espanhola amável de muitos conhecimentos e sempre carente para um “trololó” mais profundo, desejando manter uma conversação que elevava templos à história e ao cotidiano.

Bem informada sobre tudo o que acontecia na nossa Aldeia, nada se passava sem que ela, a qualquer preço e meio, não tomasse conhecimento. A sua curiosidade era latente! De tudo queria notícias! A todos perguntava o que lhe apetecia questionar sem nenhum constrangimento, tudo isto sem antes fazer seu cumprimento de boa tarde – maneira de iniciar um papo ou uma pesquisa. Agradável pela imensa sabedoria e simpatia de que era portadora. Mas, sempre o mas: a curiosidade não lhe dava tréguas.
Numa dessas tardes calorentas eis que estão as duas a papear como de costume –cada uma sentada em frente das suas respectivas casas, separadas pela avenida. Tanto era a ausência de movimento na rua que nada lhes atrapalhava a conversa. Silêncio total, só as duas “tagarelavam” sem nenhuma interferência, exceto um latido ou outro de um cão que por acaso ali vagasse.
Enquanto acontecia esse agradável bate-papo do entardecer eis que surge uma senhora com um “embrulho”, debaixo do braço que ia retornando ao seu lar. (embrulho é igual a pacote para os íntimos, como diria o saudoso Mestre da nossa geração de bancários do BASA, o inesquecível Amyr Azzi).
A espanhola, olhando para a direita, viu que, distraída, com um volume arredondado debaixo de um dos braços, vinha uma figura feminina indolentemente pela Avenida Costa Marques. E a nossa boa velhinha começou a dar tratos à bola:
–O que traz essa mulher nesse embrulho? Pensou ela em voz alta... o que foi ouvido no outro lado da via pública.
Dentre uma conversa e outra entre aquelas duas matriarcas, a espanhola, curiosa como sempre, pergunta à passante:
–“Boa tarde, querida! O que levas aí?
A senhora passante estranhou a indagação, porém não se fez de rogada e disparou, com o cenho franzido:
–É um baita penico, ainda sem uso, satisfeita, senhora?
–Que deselegante, diria a Sandra Annenberg, do Jornal Hoje, da TV Globo, se ouvisse o diálogo...

Esse valioso equipamento foi de grande valia, muito utilizado e necessário à época. “Penico: substantivo masculino - vaso para urina e dejeções”.
Até hoje é usado por crianças que não podem valer-se do vaso sanitário em face do diminuto tamanho delas.
Convém continuar decifrando o objeto citado pela transeunte ali naquele momento na Avenida Costa Marques, quase esquina com a Quintino Bocaiúva: PENICO – no popular é um vasilhame usado em casa que quebrava o galho em noites de chuvas e/ou de muita escuridão, haja vista que o WC –ou como diz meu amigo Joaquim Francisco Bártholo Júnior, o Carola, responderia pelo nome de SENTINA, se pudesse falar– mas, quase sempre é localizada nos quintais o mais distante possível do poço de captação d’água.
Esse instrumento tão útil quanto famoso –o penico– resolvia muitos problemas, dentre esses o mais forte, pois neutralizava o medo de, saindo para o quintal, o ensandecido personagem com dor de barriga pudesse dar de cara com alguma assombração, com a repercussão antecipada da liberação do esfíncter, logo, antes da hora precisa.
“Eu não acredito em bruxas, no nosso caso, em fantasmas, mas que eles existem, existem”...
Vai daí que a resposta não agradou a veneranda senhora espanhola que, bastante ofendida dirige-se a sua interlocutora magoadíssima:
–Bem feito para mim para não ficar fazendo perguntas a certas pessoas desprovidas de classe, sentimento e humor...
Ocorre que o tal pacote disfarçava o seu conteúdo, mas era realmente um penico e, debaixo do braço da pessoa que o transportava, com efeito, ainda não tinha estado em uso... 

* PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
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