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Publicado em 7 de julho de 2016

As boinas, o guarda-chuva, o jardim e a horta lá de casa

Por Paulo Saldanha
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* Por Paulo Saldanha
 
Quando volvo o meu olhar saudoso para os tempos de criança, sou levado a pensamentos soltos que se misturam nas minhas lembranças. Ora sorrio, ora balanço a cabeça contrafeito. Nessa fase, sem os conhecimentos e a experiência trazidos com as vivências, eu desdenhava tanta coisa...
É que vêm à baila episódios que eu detestava e como detestava! Exemplo: usar as danadas das boinas que as freirinhas escolheram como indumentária de gala complementar dos alunos do Colégio Nossa Senhora do Calvário, das irmãs Calvarianas, que tanto edificaram e tanto transformaram no universo regional.
Aquelas boinas não me caiam bem (pelo menos assim pensava), porque não se mantinham fixas na cabeça chata deste neto de nordestino. Meu cabelo era cortado no estilo militar, máquina zero. E aquela peça navegava em cima do cocuruto, surfando num movimento de tomara que caia, revoltando-me e me transformando em equilibrista igual ao exercício da mulher que levava uma lata d’água na cabeça.
E como não gostava daquela peça usada por outros meninos, achava que aqueles outros também tripudiavam da peça instalada como complemento do meu uniforme da gala.
Outro equipamento que me angustiava a vida era o tal do guarda-chuva, cujo transporte representava, no meu caso, encargo atribuído ao mais velho entre os filhos do casal, como se houvesse uma lei determinante, constitucionalmente imperativa, assinalando que, ao primogênito, cabia esse serviço, para mim, quase macabro e que me envergonhava porque eu sabia, ou pelo menos intuía, que esse dever pertencia aos idosos. E eu nem tinha chegado aos 10 anos de idade.
Um dia, vínhamos meu pai, minha mãe e eu lá do Rio de Janeiro e, passando por São Paulo, meu genitor, ante o tempo chuvoso, adquiriu aquele artigo “pernicioso”, antigo, cabuloso, quase asqueroso na visão infantil, que me atormentava a existência. Quando em desuso pelos meus manda-chuvas, a mim cabia a árdua tarefa de transportar aquele monstro. E vim, qual fiel depositário conduzindo aquela aberração, criatura abominável concebida pelos humanos, desde a capital paulista, até o aeroporto de Guajará-Mirim, passando por Campo Grande, Cuiabá, Cáceres, Vila Bela da Santíssima Trindade, Conceição no Rio Guaporé.
Como sentisse injustificável vergonha de ser instrumento de condução coercitiva do equipamento de proteção contra o sol inclemente ou da chuva incivilizada e cruel, reconhecendo que os abraços e os beijos da família que aguardava o pouso do C-47 da Cruzeiro do Sul, iriam distrair Pai e Mãe, estrategicamente “esqueci”, “olvidei” de carregar aquele rumoroso bem, deixando-o na poltrona da aeronave. E nem fui cobrado depois pela “inconsciente falha”... Aconteceu!!!
Porque adorava jogar futebol na rua de casa, após as tarefas me desafiavam como estudante, ficava ruminando entre os dentes quando a minha avó ou a minha mãe gritavam da varanda de casa para que fosse eu cumprir uma obrigação: limpar, retirando as ervas daninhas do nosso jardim molhando os canteiros, inclusive da horta, serviços que deveria cumprir religiosamente, pelo menos uma vez ao dia, a partir das 17 horas, justamente o horário sagrado das peladas de futebol.
E a revolta daquele tempo passou a ser a mesma de agora quando escrevo esta crônica... Um acinte contra a liberdade de um menor de idade.
Ocorre que, ao encerrar, lembrei-me de outro caso de indignação por conta da ração (palha de arroz aguada, macaxeira e sal) que diariamente deveria preparar para complementar a alimentação de duas vacas enviadas de Ilha das Flores, lá da Fazenda do meu tio João Saldanha, no rio Guaporé, cujo produto, o leite, alimentava a família, e, ainda, fazíamos coalhada e manteiga, também. Um dia, uma das vacas, com cria nova, partiu para cima de mim; corri tanto, mas tanto, que o calcanhar batia no pescoço; meu pai sem ação só gritava, exclamando – VACA!, VACA!, VACA!– e eu, com tudo trancado, consegui subir no improvisado curral nos fundos do nosso quintal, escapando fedendo, literalmente falando.
Mal sabia eu que, o guarda-chuva, o chapéu e a sombrinha revelavam a sabedoria da geração passada na precaução pelas conseqüências inapagáveis da luz solar, notadamente entre as 10 e as 16 horas.
E hoje, idoso, nem acho o guarda-chuva um bem assim de utilização tão horrível... e tão desnecessária...

*PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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