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Publicado em 25 de maio de 2016

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: O sino da Igreja e o apito do trem

Por Paulo Saldanha.

A saudade que acalenta é a mesma que inspira. As saudades que me envolvem são as mesmas que invoco para dividir com os poucos leitores as lembranças de um tempo que, eu sei, não volta mais. Quem, como eu, viveu o fervilhar da estação ali quase às margens do rio Mamoré, reconhece que aquela época, ao recordar dela, dá uma saudade doída no sentir. As pessoas com suas malas, seus baús, suas sacolas, carregando esperanças junto com os gêneros, remédios e roupas. Algumas, desejando não perder tempo, esbarravam-se umas nas outras, proferindo impropérios ou uma saudação verbal calorosa de despedida.
Os carregadores apressados também despachavam as mercadorias ou recolhiam as caixas que se destinariam aos comerciantes da cidade, conforme o horário, se de chegada ou de partida do trem.
A máquina, demonstrando ansiedade, resfolegava e apitava indócil, parecendo um potro desejando iniciar a desenfreada carreira, imposta pelos apostadores de plantão.
Lá dentro dos vagões, as famílias se alojavam orientando aos gritos os filhos para se acomodar na poltrona escolhida, antes que algum aventureiro lançasse mão do lugar.
E o trem apitava denunciando aquela inquietude de que precisava dar inicio ao deslocamento previsto. Um monte de fumaça saia das rodas de ferro da máquina líder, como a dizer que aquela inércia estava prestes para acabar.
Um pouco lá atrás a Caixa d’água, alta, rija, negra olhava de soslaio toda orgulhosa, qual Mãe dadivosa que acabara de doar leite para um de seus filhos gêmeos bastante esfomeado. Ela, como disse, orgulhosa, agradecia ao céu a oportunidade de que se valera para cumprir a sua função, despejando através do líquido, o oxigênio necessário até o próximo abastecimento. A água doada era recolhida de forma gulosa pela nave provedora da única ligação entre o céu guajaramirense e o horizonte portovelhense.
Fora disso, somente a navegação entre esta cidade e Vila Bela e de lá até Cáceres significava a chance – as únicas– de nos unir ao progresso e às noticias do sul do país.
Enquanto isso, o relógio da Igrejinha ia sinalizando o nosso tempo. Os sinos badalavam, na cadência e no ritmo devidos, o horário que transcorria célere em direção à vida. Ou à morte! Ao chamamento da Missa, da Novena, da Procissão ou ao velório de alguém.
O tinir do badalo no sino ou significava o alerta do tempo ao compromisso religioso ou ao pranto.
A cidade comovida ouvia o seu badalar tonitruante e se questionava através dos seus habitantes, que mensagem de angústia ele traduzia? Quem havia morrido, qual a família enlutada, quando aquele sinal pranteava a dor.
O certo é que o sino da Igrejinha simbolizava através do seu sentir o poder de informação que ele enfeixava como mensageiro de boa ou de má noticia. Era um instrumento de integração, pois ao seu “grito de guerra ou de alerta” a cidade caminhava em direção à Praça Mário Correia, onde se celebravam os eventos ou onde se recolhiam os detalhes divulgados segundo o que traduzia o seu bater.
Hoje o trem parou. Viajou! Seu retorno depende de ação e de recursos visando a se transformar num instrumento de atração turística. Mas já não existem homens da têmpera do Coronel Teixeira, um administrador sensível, que valorizava a cultura e a história. Ninguém tem poderes para ressuscitá-lo, objetivando a criação dos meios para essa empreitada. Que pena!
Por outro lado, o sino emudeceu! calou-se! Na região não existe um profissional que possa fazê-lo “cantar”. Já não envia suas mensagens nem demonstra a ansiedade pela marcação das horas. Mantém-se silente, pensativo e esperançoso…
Hoje o trem foi substituído pelos ônibus e pelos caminhões. O relógio das Igrejas desceu primeiro para as paredes das casas, para a algibeira (bolso que faz parte integrante da roupa), depois para os pulsos dos homens e mulheres.
Porém, na cadência do tempo a velocidade de agora parece voar mais célere na busca desenfreada do homem moderno em direção ao seu próprio desgaste, à guisa de que obter conquistas materiais é o seu apanágio, é o seu foco principal. Ledo engano!
Poderá ser a antecipação do seu próprio fim!

Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha

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