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Publicado em 2 de maio de 2016

Crônicas Guajaramirenses - O ENVELOPE QUEIMADO ANTES DE ABRIR

Por Paulo Saldanha.
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* Por Paulo Saldanha

Ao ouvir a música “Mensagem”, gravada por Isaurinha Garcia e regravada por Vanusa e Maria Bethânia, lembrei-me da história mal resolvida de um parente bem próximo que, inseguro do amor de sua amada, resolveu pôr fim ao romance, embora ainda apaixonado por Cecília.   

Cecília, mulher bonita, exuberante, charmosa, chegou aqui a Guajará-Mirim como atriz de um grupo que vinha se apresentando, Belém acima, em todas as cidades amazônicas, como, Santarém, Parintins, Itacoatiara, Manaus, Borba, Manicoré, Humaitá e Porto Velho, até que Guajará-Mirim lhe pegou tão desprevenida.

Aqui chegando, numa troca de olhares enquanto representava no palco, observou partindo de um bonito rapaz, tão extasiado, dirigindo-lhe intensos olhares, quando ao ser abordada no camarim, uma paixão inexplicável os surpreendeu e passaram a fazer trocas de amor. Namoravam num dos cantos da Praça Mário Correa e não se cansavam de ver o reflexo de um nos olhos do outro.
A temporada da artista com a trupe encerrou-se nesta fronteira. E ela, casando-se com ele, menos de 60 dias depois do início do namoro, concorreu para que o líder da companhia improvisasse uma substituta. O Rio Guaporé passou a ser o seu universo e o céu cobridor daquele pantanal, ao mesmo tempo sacrário e relicário, o seu horizonte.
Ela, considerando os tempos vividos nos anos 40, não tinha pendores para ser dona de casa. E foi sentindo falta da ribalta e da vida social em Belém, capital paraense onde vivia.
O médio Guaporé jamais fora seu sonho sonhado. E aquela relação, vivenciada sem tempero na adversidade, apenas tendo a paixão como respaldo, atributo que une temporariamente um homem e uma mulher por força de um desejo carnal irrefreável, não resistiu, sucumbiu e foi esvaziando, esvaziando, até que murchou, pelo menos assim pensava ele.
Ocorre que ela também raciocinava do mesmo modo. E em face daquele sentimento desgastado, Cecília, pegando um motor que liderava dois batelões, deixou o porto do lugar. Lágrimas foram vertidas inicialmente, depois um choro convulsivo e intermitente os alcançou, e ele do barranco ficou entristecido e desesperado enquanto a composição se afastava e desaparecia no estirão.
Cecília, ao chegar a Guajará bem cedo, com o dinheiro que trazia comprou o bilhete na ferrovia e, de Porto Velho, seguiu viagem num barco regional dirigindo-se até Belém, e ali retomou a sua vida interrompida como atriz. Porém, algo tinha ficado bem forte lá atrás, e alguém num lugar ermo, bem distante, revivia cenas que emergiam nos sonhos de homem que se descobriu realmente apaixonado por Cecília, o amor da sua vida.
As boas lembranças do convívio e as recordações das cenas íntimas os conduziam, cada qual no lugar onde se encontravam, ao sentimento chamado saudade.
Todavia, por outro lado, frases mal pronunciadas, como o “estou farto de ti” na última briga do casal, impediam de um tentar recuperara relação rompida com o outro. Palavras tão duras – já não te suporto mais – ditas num momento de discussão eram recorrentemente lembradas, dificultando a iniciativa para o restabelecimento de um novo convívio.
Johnny,curvando-se ao amor que descobrira tão sólido,imaginava inclusive vender a propriedade e mudar-se para Belém, tudo com o objetivo de reconquistar o respeito e a afeição de sua amada.
Assim, superando o amor próprio, mas em nome da humildade e na busca de reconciliar-se com Cecília, eis que Johnny lhe escreveu, após descobrir o endereço dela na capital paraense.
E agora, recordando essa história, os versos da letra ainda ecoam no meu cérebro: “Quando o carteiro chegou / E o meu nome gritou / Com uma carta na mão /Ante surpresa tão rude / Nem sei como pude chegar ao portão”.
Um dia, Johnny, embalando-se na rede da sua casa, desabafou comigo a sua tristeza por não ter obtido a resposta da carta escrita com a sua proposta visando o reencontro, que considerava imprescindível para a sua felicidade, esperando que fosse a dela também.
Anos depois, em 2007, ambos já falecidos, eis que recebo na minha propriedade uma senhora que desejava conhecer-me.
–Você é sobrinho de Johnny? Eu fui a melhor amiga de Cecília. Ela era apaixonada por seu tio.
–E ele por ela!  - disse-lhe. -Ele me disse que jamais a esqueceu e que lhe escreveu uma carta, em 1946, propondo-lhe uma reconciliação.
Um silêncio questionador foi ouvido...
–Eu sei de uma carta. Ela recebeu o envelope, mas pensando que viriam agressões, ela o queimou para não sofrer mais...
Volto para a letra da música “Mensagem”: Assim pensando rasguei sua carta /
E queimei, para não sofrer mais.
Depois da separação eles também trilharam linhas paralelas, não mais se encontrariam, jamais...

* PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER. 

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