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Publicado em 18 de março de 2016

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES: O grande Capitão Alípio

Por Paulo Saldanha.
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Na sua sala, apenas um armário com livros, uma cadeira, duas ou três para o interlocutor; atrás da poltrona do chefe, um crucifixo, ao lado uma porta, que indicava o rumo do banheiro, adiante uma poltrona e um cofre não muito grande; numa das paredes um claviculário, com algumas chaves depositadas. Aliás, havia também numa das prateleiras, sempre ao dispor daquele comandante uma caixa de charutos.
De onde estava, podia ver quem adentrava no recinto e podia, ainda, observar parte de umas grades de ferro, onde alguns personagens poderiam achar-se recolhidos.

Outras salas, localizadas mais no interior do prédio, abrigavam os espaços destinados aos guardas em serviço e ao escrivão. Bem ao fundo, além de outros banheiros com sanitários, separadas por uma parede de tijolos, bem fina, havia uma cozinha e uma pequena copa. Em frente do prédio uma calçada. Nos fundos um pequeno terreno com pés de mamão, uma goiabeira e nos seus limites, dois coqueiros.

O policial aposentado Vaca Braba com o quadro do antigo chefe, capitão Alípio: o mito de Guajará-Mirim/Fonte: Dalton Di Franco
O policial aposentado Vaca Braba com o quadro do antigo chefe, capitão Alípio: o mito de Guajará-Mirim/Fonte: Dalton Di Franco

Uma ante-sala com uma mesa, onde um guarda a ocupava, sempre sentado, levantando-se quando o chefe passava ou quando outra autoridade e o cidadão comum pediam para ser anunciados. No ambiente, outras cadeiras para os chegantes e uma poltrona meio envelhecida compunham o cenário. Na realidade, era um imóvel simplório, mas que servia como anteparo contra eventuais meliantes que visitavam a cidade, porque distraídos ou desinformados do que naquele edifício poderia acontecer. Ali era uma Delegacia de Policia, ali trabalhavam homens que protegiam a população.
O Delegado e capitão, um nordestino de Riachuelo, Estado de Sergipe, tinha um nome pomposo, Manoel Alípio Evangelista da Silva, ficou conhecido na região como o Capitão Alípio, egresso da Policia Militar de Mato Grosso. Um nome, uma lenda, jamais seria esquecido! Viera para a região, quando o Município que adotou ainda pertencia àquele Estado da federação. Altivo, formação retilínea, era temido pelos fora-da-lei e respeitado pelos munícipes.
Sua fala era mansa, mas as suas respostas contra os bandoleiros eram contundentes. Ao dirigir-se às pessoas o fazia com um timbre de voz pequenino, que escondia o quão vigorosa era a sua ação contra os meliantes. Sempre com um fulgurante charuto na boca, quantas e quantas vezes transmitia as suas ordens com o fumegante entre os dentes.
Tendo morado até os dezessete anos num seringal gerenciado pelo Pai, acabou viajando para Cuiabá, onde iniciou a sua emblemática vida como homem da Lei. Tornou-se soldado da PM mato-grossense e cuidou de estudar, visando a alcançar melhor desempenho curricular, mas seu sonho era tornar-se Oficial daquela corporação.
Em 1927, pois, como soldado, ingressa na PM de Mato Grosso e faz uma carreira que o conduz as terras mato-grossenses da região da Madeira-Mamoré, quando a promoção para Tenente o premia pelo desempenho profissional exemplar, pela dedicação e amor cívico no desempenho de suas funções.
Um dia ia ser promovido a capitão, acaso aceitasse a transferência para outra localidade, dentro da jurisdição, mas opta por permanecer nesta fronteira, mesmo com a patente de tenente, culminando com a sua indicação para o cargo de Delegado.
Em 1929, com a instalação do Município de Guajará-Mirim, é confirmado como comandante da guarnição policial; após a criação do Território Federal do Guaporé, já tenente, transfere-se para a emergente Guarda Territorial. Depois de algum tempo é promovido a Capitão, título que o credencia ao reconhecimento até fora dos limites de seu campo de ação.
O Capitão Alípio passa a ser decantado em verso e em prosa, mercê da sua carismática pessoa. Alto, magrinho, com a sua farda caqui e seu boné da mesma cor caminhava pelas ruas da cidade, sem armamento, desacompanhado de seguranças e ia cumprimentando um, abraçando outros, tanto na ida como na vinda. Popular, humilde, cumprimentava até as crianças filhos e netos dos adultos da sua geração.
O velho capitão ainda reina soberanamente nas nossas lembranças e viverá eternamente na nossa história como homem e como uma legenda, difícil de ser relegada a um segundo plano, até está sendo imortalizado em livros, um de minha lavra e outros de escritores já que estamos escrevendo sobre a sua trajetória, tão rica e tão emocionante.

PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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