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Publicado em 1 de fevereiro de 2016

Um dia lá no Clipper de Guajará

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Parecia que aquele jovem sentado ali à mesa ao lado estava invisível. Todavia, por não ser alienado ouvia tudo o que conversavam ao derredor… Um dia me repassou essa história.

É que alguns seringalistas envolvidos no jogo de dominó com os comerciantes maiores do pedaço nem se davam conta da presença dele e discutiam temas familiares.

Tibério tinha ouvidos de tuberculoso e era um observador atento!

Eu mesmo concordei com ele sobre a intensidade de valor que todos davam ao Clipper, um lugar quase sagrado para onde convergiam ao final das tardes os empresários da localidade: gregos, nordestinos e libaneses, principalmente.

Esse empreendimento, o Clipper, vendia cervejas geladas, bebidas quentes – inclusive o famoso rabo de galo (vermute com cachaça) – saltenhas, croquetes, pastéis, chicletes, balas (bombons) e toda sorte de quinquilharias: lanternas, cigarros, fósforos, isqueiros, pilhas, agulhas, clipes, lápis, etc.

O Clipper –os antigos recordam– ficava bem no meio da Avenida Presidente Dutra, na confluência com a Avenida Mendonça Lima. Num dos lados, a Casa Dias, do Walter Dias, depois Casa Talamás; no lado oposto a loja do Milton Santos.

Enquanto as partidas se sucediam, os assistentes – pequena platéia – mantinham-se em pé sorvendo o rabo de galo ou, para os menos favorecidos nas finanças, a velha Cocal cansada de guerra. A Cocal era, para alguns destemidos, servida pura, purinha da silva, o que acabava por arrebentar os peitos dos menos avisados, enfim suavizada se viesse acompanhada pelo vermute.

E as pedras dos dominós eram lançadas sobre a mesa com a veemência dos obstinados, multiplicando os sons no derredor daquele abençoado lugar de saudosa lembrança. Ainda hoje me lembro das batidas estridentes das pedras contra a mesa, com as quais os “dominozeiros” se valiam para consagrar pontos naquele tipo de disputa em que aos perdedores cabia o pagamento pelas cervejas consumidas pelos participantes.

Vai daí que um pequeno número de seringalistas, após verem seus competidores retirarem-se em direção às casas respectivas, ficou proseando sobre os desencantos com o casamento. Lamúrias vieram e lamúrias foram lançadas em desabafo.

–Minha mulher anda muito chata e gastadeira…

–Pois a minha, além de chata, virou resmungona. Parece estar sempre de mau humor!

–E a minha, meus amigos, zela do cabelo e das unhas melhor do que o cuidado que deveria devotar aos filhos…

E Wilmar Feira de Santana, o mais velho do grupo, ouvia em silêncio aqueles desabafos, sem tirar partido, enquanto lia o Almanaque Capivarol.

Anastácio Negromonte arriscou defender as mulheres, mostrando o lado bom da esposa – para ele, santa e imaculada mulher.

–Você fala assim porque não se casou com Soila Gertrudes Velásquez, nobre amigo. Essa minha companheira é “virada no cão”!

–Você elogia porque não vive no mesmo teto que Efigência Borba de Cintra, meu verdadeiro carma – assinalou Soriano Militino de Cintra.

Foi aí que Wilmar, comerciante e filósofo de plantão, desejando livrar-se de tantas lamentações, explodiu:

–‘Ocês’ tudo são ‘culpado’! É a lei do retorno, meus ‘amigo’. ‘Ocês’ tão pagando porque obraram muito mal com suas ‘mulher’…

–Como nós?  – quase que em uníssono os seringalistas presentes se manifestaram, questionando.

–É que ‘ocês’ fizeram a felicidade das ‘esposa’, deixando elas sentirem prazer na hora do sexo… Comigo, não! Nesses 50 anos de meu casamento, quando vejo que a Maura Beatriz vai caminhando para ‘revirá’ os ‘olhinho’, eu puxo e repuxo e não deixo ela chegar lá…

Todos ficaram incrédulos e questionadores. Arrependeram-se de ter praticado tanto bem…

–‘Muié’ satisfeita cria asas porque se fortalece em cima do prazer carnal com que nós ‘homi’ lhes favorecemos.

E Maura Beatriz, a dócil esposa de Wilmar, continuou calada, disciplinada e infeliz até o final de seus dias.

E o pior é que o jovem ouvinte daquela história toda vez que via dona Maura Beatriz transitando pelo comércio da cidade a enxergava como uma pudica, mas mal amada mulher do pedaço. Bonita e bem feita de corpo atiçava as fantasias de Tibério que me afirmou:

—Nunca tentei, mas aquela dona Maura Beatriz merecia ser osculada com “paixão devoradora”…

O chauvinismo ainda era desconhecido, mas o machismo de Wilmar Feira de Santana marcou Tibério de tal maneira que, ao contrário, fez nascer nos seus sentimentos de homem a sensibilidade que, para ele, elevava templos às mulheres, posto as reconhecer como o mais perfeito dos ideais, razão de sempre as colocar no pedestal mais alto, simbolizando um altar.

 Palavras para reflexão!

Autor: Paulo Saldanha

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