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Publicado em 5 de fevereiro de 2016

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Nem tudo que parece, é!

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES, por Paulo Saldanha.
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* Paulo Saldanha 
 
Aristodemo, homem pequenino, magrinho, negro, descendente de índio, era trabalhador e leal! Mas aposentou-se. Bem educado, apesar da ausência de instrução formal, tinha como quase todos os ribeirinhos afeto pelas pessoas e carinho pelos bichos.
Um dia me disse:
–sô Paulo, vou deixar a empresa!
–E por quê?
–Pruquê a cozinheira e o marido dela tão sonegando comida pr´eu.
–Mas, como?
–Num sei, não! Mas não desejo confusão comigo nem com ninguém...
–Pois fique sabendo que eu e a minha mulher gostamos muito de você. Você só nos deixará se não confiar mais em nós.
Era o que Ari desejaria ouvir. Sentiu-se forte, valorizado e dignificado. Ficou e navegou mais de 20 anos ao nosso lado. Até que conseguiu aposentar-se, mas ficou morando aqui no nosso lugar. Ia até a cidade e voltava quando sentia saudades. Pescava e pescava! Fazia os seus pratos pescados apanhados ora moqueados, ora fritos, outras vezes cozidos a pleno fogo.
Sucedeu que o casal que sonegava a comida foi instado por mim para melhor tratar o meu amigo Aristodemo, pessoa da nossa estima e consideração. E melhoraram mesmo as atenções para com o nosso considerado fiel escudeiro.
Mas, ironias à parte, a mulher do caseiro de então era expansiva demais para a nossa percepção e eis que, num inicio de noite, após ter servido o jantar, sem ter sonegado nada ao Aristodemo, trancou-se no quarto com o marido e eis que, de fungados em fungados, passou às vias de fato com o ardoroso esposo; e gritava e gritava, incendiada pela loucura e criatividade do companheiro de vida e de alcova.
Aristodemo, acostumado a defender as mulheres, já aturdido com a infernal gritaria ali ao lado, pensando que Magal, o homem da mulher, estivesse batendo na consorte, chutou a porta, desejando defender sua nova amiga desde criancinha. Assim, abrindo-a de par a par, viu uma cena forte para os seus olhos nem tão pudicos assim. O casal inebriado com a intensidade de um amor ensandecido nem parou com o ato que praticava.
Ari ficou sem jeito e fechou a porta, pois verificara que os travesseiros estavam soltos no chão, luxúria à parte, os amantes se davam, buscando a calmaria que costuma acontecer logo depois do amor...
–Sô Paulo peguei aqueles dois na maior pu..ria! Fui para salvar a mulher e vi que eles estavam é fornicando. Mas ela gritava demais! Pensei que ela tava é apanhando...
        Ironias à parte! Ari tentou salvar sua frágil algoz que lhe vinha sonegando a comida.
Mas, nem tudo que parece, é!

* PAULO CORDEIRO SALDANHA: Nasceu em 1946, em Guajará–Mirim, Rondônia. É Advogado e hoteleiro. Foi Presidente de Bancos Estaduais de Rondônia e Roraima, Diretor do Banco da Amazônia e Diretor–Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 14º Região. Cronista e Romancista. É Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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